Não respeite meus cabelos brancos!


NÃO RESPEITE MEUS CABELOS BRANCOS!
agosto 14, 2008, 10:57 pm
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Em uma das últimas tardes de maio, Humberto Gessinger nos recebeu em seu apartamento para uma entrevista sobre um tema que muito se fala, mas pouco se explica: o amor. Com seus trejeitos tímidos, entre coçadas de barba e passadas de mão nos cabelos, o vocalista e principal compositor da banda Engenheiros do Hawaii falou sobre suas canções, envolvimento político, família, idade, tempo e quaisquer outras abstrações que fôssemos capazes de sugerir. E, no olho-a-olho, nos fez perceber: mesmo para quem está acostumado a expressar sentimentos, falar do coração não é tarefa fácil.

(AS PERGUNTAS SEGUEM ABAIXO. SÃO 56 NO TOTAL, MAS SOMENTE 15 ESTÃO NA BARRA LATERAL)



3×4 – Humberto, o que é o amor?
agosto 14, 2008, 10:57 pm
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Humberto Gessinger – O que é o amor…



3×4 – Já entramos de carrinho [risos]
agosto 14, 2008, 10:56 pm
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HG – O amor é uma mistura de um monte de coisas, tipo paz, felicidade… Acho que é um mix, por isso que é tão difícil definir. Satisfação, paz, felicidade…



3×4 – E qual é o contrário do amor?
agosto 14, 2008, 10:56 pm
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HG – Pô, o contrário do amor é falta de paz, falta de tranqüilidade. O amor é a hora que a gente deixa de ser um indivíduo, talvez seja isso, o lance da transcendência. A gente é um indivíduo, e claro, não pode compartilhar as coisas mais profundas. Mas o amor faz a gente pelo menos ter a ilusão de estar transcendendo isso: que já não é mais uma pessoa e, portanto, já não é finito. E o contrário do amor talvez seja exatamente esse peso de ser finito, de ser uma pessoa isolada, de no fundo não poder compartilhar nada. Se tivesse que resumir seria isso: o amor é o que te faz transcender as tuas limitações como indivíduo, e o contrário do amor é aquilo que te aprisiona nesse lance de ser o indivíduo. Tem aquela imagem de vários peixes em aquários diferentes, cada peixe sozinho num aquário. Talvez o amor faça com que a gente seja todos peixes na mesma água.



3×4 – O amor está restrito a pessoas?
agosto 14, 2008, 10:54 pm
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 HG – O amor a uma pessoa é o mais óbvio, porque ali materializa, e tem o lance da paixão. Talvez a palavra “amor” tenha se vinculado a esse tipo de relacionamento porque é o mais óbvio, o mais visível na vida de todo mundo. Mas eu acho que é uma coisa mais ampla, que tem a ver com o mundo em si.



3×4 – O amor a si mesmo, o amor egoísta, aprisiona ou transcende?
agosto 14, 2008, 10:54 pm
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HG – Ele dá uma ilusão de transcendência, mas na verdade é uma grande prisão, porque ele fecha a porta. Amor de fechar a porta eu acho que não é amor, e amor por si mesmo é amor de fechar a porta. Esse amor obsessivo a uma pessoa só eu também não considero um amor de verdade, porque quem tem essa obsessão, na verdade, está se projetando na outra pessoa. Está amando a si mesmo na figura de outra pessoa… Vocês fazem comunicação ou filosofia? [risos]. Próxima pergunta: como se opera um apêndice? [mais risos].



3×4 – Bom, fugindo disso então, como é fazer parte de uma banda que é ou amada ou odiada?
agosto 14, 2008, 10:53 pm
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HG – Eu não tenho experiência de estar em outra banda, por isso não sei como é estar em uma banda morna. Então, aprendi a gostar muito disso e até a sentir falta em alguns momentos. Agora, com a tendência de ficar com os cabelos grisalhos, a tendência é as pessoas te respeitarem, o que não é uma sensação muito boa… O lance do respeito não é assim…



3×4 –Tu gosta de ser vaiado?
agosto 14, 2008, 10:52 pm
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HG – Cara, eu raramente fui vaiado. Eu acho que em shows foi só uma vez… foi quando a gente abriu pro Nirvana tocando “Parabólica” no violão de nylon, e sem percussão, num momento em que o ambiente pedia coisas mais violentas. E essa vaia é um grande prazer pra mim, melhor que várias das palmas, porque é uma vaia de atitude. Agora, dizer que é bom as pessoas não gostarem de ti é uma grande mentira, o ideal seria que todo mundo te amasse perdidamente, mas ninguém conseguiu isso. Talvez o melhor seja isso: reações radicais. Eu fico bem mais sem jeito quando sai uma crítica falando bem do que quando sai uma crítica falando mal. Se sai uma crítica falando mal, eu digo “tudo bem, eu não tenho nada a ver com esse cara aí”; quando sai falando bem eu digo “pô, será que eu tenho que ficar amigo desse cara?” [risos]. É uma situação bem desagradável. Mas eu acho que é inevitável. O que tem que ter é a frieza de saber que não é um lance pessoal. O lance da crítica às vezes é parecido com especulação imobiliária: tem momento em que é legal afirmar alguma coisa, e tem momentos em que não é legal porque o que tão falando não é de ti, tão falando de vários significados. Então tem horas que tu não representa tua banda, tu representa o som dos anos 80, tem hora que tu representa o som dos gaúchos. A gente se ferrou muito no início porque a gente era muito ingênuo nesse sentido, e rolava um subtexto no centro do país, uma rixa entre Rio e São Paulo que a gente não tinha nem noção. A gente cometeu muitas gafes nesse sentido, a gente não sacou na hora que representava a coisa do Rio Grande do Sul. E nem queria representar, eu acho que tem várias bandas, muitos trabalhos melhores pra fazer isso. Quando quiseram que a gente fosse a banda “oficial” do Rio Grande do Sul a gente esperneou e não quis ser isso, aí o pessoal daqui ficou indignado. Mas foi até uma questão de humildade. Eu não posso representar isso, meu trabalho não tem essa abrangência pra representar ninguém…



3×4 – Mas a mídia é necessária para a arte?
agosto 14, 2008, 10:51 pm
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HG – Cara, a mídia é necessária pra tudo, até pra tu enterrar o teu cachorro. Tudo passa pelo crivo do filtro, porque tem muita oferta e muita procura de tudo no mundo de hoje. Tu depende do filtro, e esse filtro quem faz é quem resume o mundo pra ti e coloca o mundo debaixo da tua porta de manhã cedo. O “Papa é pop” fala sobre isso, não fala sobre o papa, eu nunca tive interesse de falar sobre religião ou sobre o mundo pop, mas sobre esse identificador que devora tudo. O quê que eu sei do Grêmio, cara? Vamos dizer que eu vá a todos os treinos e assista ao jogo, mas duas coisas que eu leio no jornal podem ser mais fortes.



3×4 – Vocês tiveram que mudar a relação com a mídia passando de uma banda gaúcha para uma banda nacional?
agosto 14, 2008, 10:50 pm
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HG – Não, não… aqui a gente já sofria um pouco o que lá a gente sofreu em escala muito maior. Aqui em Porto Alegre existia uma cena musical da qual a gente não fazia parte, então quando a gente pintou, a gente era meio estranho no ninho, a gente tava meio que furando a fila. Tinha uma cena de rock clássico, bandas como Tara na Tiriça ou Garatos da Rua; depois bandas tidas como alternativas, que circulavam em volta do bar Ocidente… umas bandas punk… De Falla, umas coisas assim. E nós éramos universitários que não tinham muito a ver. Nós éramos estudantes de arquitetura que montaram a banda pra brincar na faculdade. Então já rolou um certo estranhamento aqui, tipo “pô, quem são esses caras?”.



3×4 – Como era o clima da Faculdade de Arquitetura na época?
agosto 14, 2008, 10:49 pm
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HG – Cara, estudante de arquitetura é sempre legal porque sempre se acha criativo, tem uma certa arrogância positiva. A arquitetura é uma esquina entre a arte e a ciência, entre engenharia e artes plásticas, então é um lance meio vago. Apesar de que quando tu te forma, tu vai ter um emprego chato como todo mundo tem. Pelo menos o currículo do curso era muito agradável, e era uma galera muito inquieta. Antes do primeiro show, a gente passou muito mais tempo desenhando o pôster do que ensaiando as músicas. A gente fez um “circuito universitário”, que na verdade a gente que inventou. A gente botava os P.A. em algumas faculdades e tocava, não tinha um intercâmbio, não tinha uma cena universitária, que é um lance que pintou depois não só aqui como no mundo inteiro, esse lance college. A gente fala que existia, mas na verdade é meio forçação de barra. A gente colocava as coisas na faculdade e tocava, mas não tinha muita interação. E não tinha a menor perspectiva… Pô, o profissionalismo é uma coisa muito distante pra qualquer banda do Rio Grande do Sul.



3×4 – Tu já escrevia músicas?
agosto 14, 2008, 10:49 pm
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HG – Eu escrevo desde uns dez anos de idade, desde antes de tocar. Mas eu nunca tinha mostrado as minhas músicas pra ninguém. Eu sempre fui muito tímido no colégio e mesmo na Arquitetura, e quando alguns colegas em comum nos colocaram em contato – eu, o Carlos [Maltz, baterista], e o [Marcelo, baixista] Pitz –, eu já tinha várias músicas. “Infinita Highway” eu já tinha há muito tempo. O show era meio uma brincadeira, o próprio nome da banda, que eu inventei, era uma ironia com o pessoal que estudava engenharia e freqüentava o bar da arquitetura porque lá ficavam as meninas mais bonitas. Era uma bobagenzinha, fazia sentido local. Se eu soubesse que ia tomar conta da minha vida, eu teria escolhido um nome mais… Engraçado esse lance de nome, porque diz que uma vez o Sean Penn tava num hotel em que tava parado o ônibus do Metallica. Era bem no início, a banda não tinha gravado ainda. E diz que o Sean Penn, bêbado no bar, chamou o cara do Metallica e falou: “Pô, cara, a banda é legal mas vocês têm que mudar esse nome porque ele é muito unidimensional, não vai dar certo” [risos]. Mas era assim, nomes como Metallica, Legião Urbana, Ratos do Porão, eles são unidimensionais. A gente era meio um lance contrário, auto-irônico. Tinha a ver com o espírito da época, tu vê, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, eram nomes também auto-irônicos, talvez fosse o espírito da época assim, só que todas essas bandas se resumiram. Tinha um nome que era maravilhoso, que era “Titãs do iê-iê-iê”. Tu vê que é sintomático, num momento da carreira eles tiveram que optar só por “Titãs”, ficaram unidimensionais. A tendência é todo mundo dizer: “Tá, mas qual é a desses caras, são engenheiros ou são havaianos?”, e nós: “Não, a gente não nem é engenheiro nem havaiano”. Isso não interessa muito à indústria, a onda da indústria é mais a simplificação. A gente conseguiu resistir a isso, mas às vezes é um saco estar no interior de Minas, ou de sei lá onde, vinte anos depois, explicando teu nome. [risos]



3×4 – Recentemente você deu uma entrevista pra TVE, e disse que a gente não deve ter saudade dos anos 80, que não foi tudo aquilo; mas o amor mudou de lá pra cá? O amor não era mais escancarado?
agosto 14, 2008, 10:48 pm
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HG – Não, acho que é o contrário. Pô, os caras me enchiam o saco porque a gente tinha música que falava sobre amor. Era inacreditável. E um tempo depois, mesmo as bandas que falavam da gente começaram a escrever balada. E hoje, tu vê as fotos dos caras, os caras com a maior cara de mal, com umas guitarras torcidas, e as letras, se tu ouvir, são letras românticas. Acho que tudo hoje está resumido ao discurso interpessoal, de “você”, “você”, “você”. Tu não vê nas bandas – claro que não generalizando, generalizar é sempre uma burrice – outra coisa. Hoje em dia o relacionamento interpessoal está massificado. E por outro lado é meio sem profundidade. Tem muito pouco discurso ambíguo. Ao mesmo tempo, eu vejo que hoje em dia a vida das pessoas é mais ambígua, tu vê pessoas mais diferentes, mas a música está meio monolítica.



3×4 – Mas é possível expressar o amor através da música?
agosto 14, 2008, 10:47 pm
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HG – Cara, se tiver alguma maneira certamente é a música. E certamente não será o cinema. Eu acho que se tiver alguma forma, a mais próxima é a música, talvez com muito boa vontade a literatura, mas a música sem dúvida. Música é o top de linha, e eu falo em música no geral. Desde bater coco, berimbau… O problema da música foi o que rolou com o romantismo. Pra mim, barroco é o auge, não se andou um metro depois daquilo [risos]. Mas depois veio a coisa romântica do classicismo e da música virar autoral. Por exemplo, Bach não assinava as músicas dele e não tinha essa noção de ser compositor, ele pegava e adaptava o tema de alguém… o cara andou dois dias, pra ver um concerto de órgão, andou a pé dois dias, cara! Imagina tu ficar andando dois dias, foi a São Paulo quase de Porto Alegre [risos]. Imagina com que paixão ele ouviu! Hoje em dia, o que pode causar tamanha descarga de adrenalina numa pessoa? Só matar o outro, eu acho, por que as emoções estão meio…



3×4 – Banalizadas?
agosto 14, 2008, 10:46 pm
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HG – É! Banalizadas, pode crer. Aí tu vai ficando cada vez mais violento. Em tudo: na sexualidade, nas idéias… Tem gente com umas idéias muito extravagantes, tu só consegue entender porque é uma necessidade de ser original; e, como tudo já foi feito, a originalidade vai ficando uma coisa absurda.



3×4 – E o amor nas artes não é muito “da boca pra fora”?
agosto 14, 2008, 10:45 pm
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HG – É, mas eu acho que a arte tem que ser uma maquete, e tem que ser uma representação alegórica. Eu acho que um risco que a gente corre é estar vivendo um período muito documentarial, a verdade é tida como um valor em si, estético. É uma bobagem isso. Se tu quer elogiar, tu diz que é verdadeiro. Tudo bem, “verdadeiro” é um atributo respeitável de uma obra de arte, mas não deveria ser o que julga.



3×4 – Tu não é verdadeiro na hora de compor?
agosto 14, 2008, 10:44 pm
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HG – Eu sou. Mas olha só: eu não queria que isso fosse o que diz se minha música é boa ou não. Eu acho que a habilidade de expressar algumas emoções é uma boa maneira de julgar. Do artista pop de hoje se exige que ele seja verdadeiro no pior sentido, no sentido “revista Caras”: a Madonna tem que escrever sobre o filho dela, ela não pode escrever sobre um filho hipotético. Quem eu vi falando disso pelo menos foi a Sheryl Crow, reclamando: “Pô, não se aceita que a gente escreva mais uma música sobre história”, tipo “Eduardo e Mônica”. Hoje em dia o que se quer é que tu escreva na primeira pessoa. Isso pode ser extremamente limitante. Como se um pintor tivesse que pintar o auto-retrato dele a vida inteira. Tu tem uma deformação no Brasil que é a coisa de o artista ser articulado e ser bem-informado. Uma pergunta que todo mundo me faz quando entrevista é: “Quê tu anda ouvindo?”. É a pergunta mais imbecil que eu já vi, o que o cara quer que eu diga!? Qual é a onda do momento!? [risos]



3×4 – Essa não está na nossa pauta! [mais risos]
agosto 14, 2008, 10:44 pm
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HG – Mas tu vai te formar e ano que vem vai vir aqui fazer uma matéria, e teu editor vai te pedir pra informar isso, e teus leitores vão querer que tu diga isso. É inacreditável, é um clichê, é um lance que existe, mas por que? Porque no Brasil se misturou, nos anos 70 principalmente, o lance da informação e da resistência – e nos anos 70 a gente teve uma geração privilegiada, Caetano e Chico. Então essa coisa do cara falar qual é a novidade, o que é certo e o que é errado, essa atitude caetanística acabou virando o padrão. Mas eu acho que agora o momento é outro. Nos anos 80, sabe quem era crítico de revista? Eram os caras que o pai era piloto da Varig e trazia discos importados. Então tu ter acesso a um disco importado fazia a maior diferença, hoje em dia a informação está a um clique, já não é mais ter informação ou não o que te diferencia, é como tu transforma essa informação, é que tipo de liquidificador tu é. Nesse sentido, cada vez eu valorizo mais estes artistas que não sabem falar e que são meio Garrincha, que não sabia explicar os dribles dele. Eu fico muito com pé atrás quando eu vejo alguém explicando muito bem o que faz. “Esse ano nossa influência é inglesa, e não sei o quê…”, não é a racionalidade o nosso campo de jogo hoje em dia. Às vezes eu escrevo e demoro muito pra saber, apesar das letras serem reais. Mas é um processo muito obscuro.



3×4 – Você disse que não gosta muito de se colocar nas músicas como um personagem. Você já escreveu músicas sobre a tua vida?
agosto 14, 2008, 10:43 pm
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HG – Muito, muito, eu sou bem autoral nesse sentido, o que eu não sou é explicitamente autoral. Agora, pô, eu posso ser um jogador de tênis se eu quiser, na minha cabeça. Sempre é o teu ponto de vista, mas tu não precisa ficar aprisionado a tua realidade física, material. É isso que eu falo no sentido de não ser documentarista. Quando o Chico escreve sob o ponto de vista de uma mulher, todo mundo fala: “Porra, Chico é maravilhoso, entende as mulheres”. Certamente qualquer feminista ficaria indignada com isso. O Chico é ele se fazendo mulher, essa é a beleza, mas sempre é uma representação. Isso que o lance da arte não pode perder, a arte não pode ser um substituto à vida, a arte tem que ser uma representação da vida.



3×4 – Mas o Engenheiros já foi mais documental. Por exemplo, “Parabólica” tem um clipe com a tua filha, vocês vão pra São Paulo e gravam “O herdeiro da pampa pobre”… Tu não acredita nisso?
agosto 14, 2008, 10:42 pm
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HG – Sim, mas se tu ouvir “Parabólica”, independente do clipe… o clipe é uma explicitação, mas o que eu faço é bem mais nebuloso do que é no clipe. Acho que sem dúvida, o ambiente tende a te deixar mais documental, busca uma âncora qualquer com a realidade e ali quer te capturar. Ao mesmo tempo, tu vê, gravar “Herdeiro” em São Paulo e no Rio é meio que anti-documentarial, o documentarial seria eu chegar no Rio e “pô, agora eu vou pra Mangueira”…



3×4 – Mas é uma provocação também, Humberto…
agosto 14, 2008, 10:42 pm
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HG – Isso sim, mas não é uma coisa reta. Como vou te dizer “estou no Rio, agora estou influenciado pela música da Mangueira”, que seria o lógico? Talvez foi uma reação ao que diz que isso existe. Ou talvez eu tenha caído na armadilha. Mas, a princípio, é uma reação. E, quanto a ser mais ou menos, pra mim é superdifícil analisar, porque eu escrevo mais ou menos da mesma maneira. Talvez daqui uns anos eu consiga olhar e ver mudanças na minha obra, mas no olho do furacão eu não consigo ver muito claramente. Além da mudança natural que é envelhecer, a tendência é tu perder um pouco as arestas e teu olhar ficar um pouco mais embaçado com a velhice, não é só do corpo, é da cabeça também, a gente envelhece pra caramba.



3×4 – Como assim “embaçado”?
agosto 14, 2008, 10:41 pm
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HG – As coisas, pra te tocarem, soam uma oitava abaixo, não são mais aquelas notas… Parece que tu começa a enxergar duas jogadas depois jogando xadrez…



3×4 – Não tem mais aquela clareza?
agosto 14, 2008, 10:40 pm
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HG – Não, eu acho que é o contrário, tu já viu tantas coisas desembocarem em outras, que tu começa a ver o jogo duas jogadas antes. Tu liga a tv e tem uns meninos tocando umas guitarras, e tu fica “iiiihhh, eu já vi esse filme”. O que faz tu correr o risco de ficar insensível e ser preconceituoso. Isso eu tento preservar. Mas eu já vi tanta coisa, cara, que um discurso, um disco, uma foto só, não me pegam de coração e mente. Eu preciso de um desenrolar, eu preciso ouvir o segundo disco, eu preciso ver como a pessoa vai se comportar em relação àquilo…



3×4 – Você já foi uma pessoa que se apaixonava mais fácil?
agosto 14, 2008, 10:40 pm
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HG – Acho que sim… Com o que isso tem de bom e com o que isso tem de ruim. A gente tende a ficar numa histeria emocional às vezes, e hoje não é assim. Eu acho que no início tu desconhece o tempo, o tempo não faz parte do teu trabalho, nem pro bom nem pro ruim. A gente tem a tendência de ser até meio auto-destrutivo quando é jovem. Porque a morte, na verdade, não existe na nossa mente, mas quando tu vai ficando velho, a morte vai ficando mais real e o tempo começa a entrar na tua jogada. Então tem músicas que eu faço e eu sei que não é pra agora, mas eu gosto de que não sejam pra agora, ou talvez sejam músicas que eram pro passado. E esse é um lado bom de envelhecer, as pessoas só enfatizam o lado ruim, mas esse é um lado muito gostoso, não tem mais aquela ansiedade. Tu escreve músicas e ninguém entende, e tu fica tranqüilo, tipo: “Um dia vai chegar algum maluco e vai entender isso”. Acho que a principal diferença é isso: quando a gente é moleque o tempo não quer dizer nada, depois ele começa a ser um lance do qual tu precisa pra escrever canções.



3×4 – Tu acha que o amor envelhece, desgasta?
agosto 14, 2008, 10:39 pm
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HG – Eu acho que ele amadurece. Tu começa a perder o lance possessivo e começa a te gratificar com menos, com o instante. Quando a gente é jovem a gente quebra o instante: tu quer namorar aquela garota, tu quer que o mundo mude agora, e tu quer meia entrada no cinema, tu quer um carro bacana, e tu quer tudo agora, e tudo pra sempre. E depois, mais velho, um momento bacana fica reverberando na memória, porque o tempo começa a entrar na equação. Tem uma analogia que eu gosto bastante, mas não me lembro onde eu li, que é do relógio analógico e do relógio digital. No relógio digital tu só vê aquele momento, e no relógio analógico tu vê a hora anterior, o ponteiro é que move, o tempo está ali. E com o tempo, tu começa a te ver como um ponteiro. Quando a gente é moleque, a gente vê o relógio digital, tudo é aquele instante.



3×4 – Você escreveu recentemente um livro pra crianças sobre o Grêmio. É possível amar um time?
agosto 14, 2008, 10:38 pm
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HG – É, é possível sim. É possível amar um time, é possível amar um instrumento musical, é possível amar um artista, um cachorro. Mas o que eu acho que me irrita um pouco é que se criou um clichê de torcedor gremista que não tem medo de nada e passa por cima de tudo. Eu acho muito enfadonho, e não acho parecido com amor isso, essa coisa chauvinista. Isso me fez pensar muito na hora de escrever o livro, não queria reforçar esse clichê do gremista machãozinho. Acho que consegui evitar.



3×4 – Mas isso não tem a ver com paixão? Paixão é amor?
agosto 14, 2008, 10:38 pm
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HG – Todo mundo diz que não é, que a paixão é um lance mais intenso e efêmero. E também tem o lance da amizade. Eu acho que não é simplesmente uma mudança de volume, acho que é uma mudança de sonoridade, de timbre também. Eu acho que amor é uma coisa extremamente inteligente, o amor, pra mim, é o supra-sumo da inteligência. A paixão não, acho que a paixão é outro tipo de relação, a paixão tem uma ansiedade que o amor tende a aplacar.



3×4 – E qual a diferença entre amizade e amor?
agosto 14, 2008, 10:37 pm
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HG – A amizade eu acho que é uma coisa pouco valorizada no mundo em que a gente vive. É a coisa mais difícil entre as três. Porque eu acho que a paixão é uma coisa meio hormonal, e tem raízes em partes específicas do cérebro. O amor dilui isso, e a amizade, pra mim, é a mais surreal de todas. A amizade de tu conhecer uma pessoa, ficar doze anos sem encontrar ela, e quando encontra reata a conversa de onde tinha parado.



3×4 – O Maltz disse numa entrevista que vocês nunca foram amigos durante a banda, que isso foi uma coisa que veio depois. Como foi isso?
agosto 14, 2008, 10:36 pm
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HG – Mais por culpa minha, eu não sou uma pessoa de muitos amigos. E se tu for encarar a amizade como ir na casa um do outro pra jantar, nesse sentido não tinha mesmo. Eu nunca fui na casa do Augustinho [Licks, ex-guitarrista da banda], fui poucas vezes na casa do Maltz, mais porque a gente ensaiava ali mesmo…



3×4 – Tens contato com o Augustinho?
agosto 14, 2008, 10:35 pm
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HG – Não. Mas isso é muito mais por uma maneira de eu ser – eu sou assim com meus colegas de colégio também –, do que em relação a eles. Mas é que numa banda a comunicação é tão violenta, forte, e passa por outros canais, que essa coisa de ter uma amizade de sair pra jantar junto fica até meio superficial. O lance de tocar junto é outro nível de comunicação. Tudo o mais parece superficial quando tu tem esse tipo de relação, eu acho. Se não existe esse lance de amizade com a banda, acho que muito é culpa da minha maneira de ser. Eu sou muito fechado e eu não tenho o que e chama de inteligência social. Não sou uma pessoa agradável pra tu conversar [risos]. Eu vou numa janta e fico sempre brincando com as crianças, e todo mundo: “Ah, como ele tem jeito pras crianças”. Mas eu noto que é um jeito de fugir da situação, a primeira criança que eu vejo, pego e saio brincando [risos]. Eu não sou uma pessoa muito interessante pra o que eles chamam de small talk… Vamos falar sobre o jogo, vamos, mas então vamos falar sério. Fica um abismo entre uma resposta lacônica ou falar muito sério. Mas eu sempre fui muito tímido. Acho que esse lance de ser socialmente inteligente é uma coisa que tu aprende na infância e adolescência. E eu não tive esse aprendizado, sou bem tosco nesse sentido.



3×4 – Tu disse que o amor é ter essa noção de estar no conjunto… Como é equacionar isso?
agosto 14, 2008, 10:34 pm
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HG – Pô, é bem difícil. Agora que eu estou aprendendo a falar entre as canções. Acabava a música e eu pensava: “Cara, onde é que eu tou?”. Parecia que eu tinha caído de um ovni no palco. E é uma coisa muito desagradável um palco sem som… E acho que na vida real talvez eu seja assim também. Mas às vezes tu encontra pessoas para as quais esse tipo de vibração tem ressonância. Acho que as relações interpessoais são como um instrumento. A corda vibra, mas a corda sozinha não faz som nenhum… tu precisa do corpo do violão. E ele tem uma afinação, uma frequência na qual ele funciona melhor. E acho que assim, na vida, tu vai te encaminhando para pessoas nas quais tu reverbera e tu reverbera elas, numa relação de alimentação.



3×4 – Mas como figura pública, às vezes essa dificuldade passa como arrogância. Aconteceu bastante na carreira de vocês?
agosto 14, 2008, 10:33 pm
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HG – Muito, muito… até hoje. E se eu visse, eu ia me achar arrogante também. Eu entendo as pessoas. A gente aqui no Sul a gente tem uma maneira de falar muito estranha pra quem é do centro do país. E a gente tem um senso de humor muito estranho também. A gente é muito auto-irônico. Diz, por exemplo: “Ah, isso aqui é uma chinelagem”, e o cara fica ofendido [risos] Mas é porque a gente fala isso de nós mesmos! E eu também não guardo fisionomias. Se eu encontrar vocês amanhã, não vou cumprimentar ninguém. E cara, eu dou muito fora por causa disso! E também encontro muita gente que diz que me conhece, mas não me conhece: “Ah, eu estudei medicina contigo! Ah, eu estudei direito contigo! Ah, eu morava contigo em Florianóplis!”. Pô, eu nunca morei em Florianópolis, nunca estudei medicina! [risos] Aí tu diz pra pessoa: “Cara, eu nunca estudei medicina”. E o cara dá uma risadinha e acha que é mentira. Mas uma vez eu encontrei num avião uma menina que me disse: “Eu estudei contigo!”, e eu pensei: “Aaah… denovo!”. Aí tratei ela bem, mas friamente. Era um vôo Porto Alegre-Rio, duas horas, e eu não deixei avançar o assunto. Aí desceram as malas e cara, quando ela bateu a porta do taxi caiu a ficha. Ela tinha sido muito minha colega, mas muito! Estudou anos comigo, anos! E eu: “Cara, que merda!”. Ela deve ter me achado o cara mais rude do mundo. Certamente passa por arrogância esse lance… Mesmo porque, pô, eu é que tinha que ter aprendido a não ser assim, a romper a timidez. E aqui até não muito, mas acima do Rio as pessoas reclamam muito do lance de não falar entre as músicas, de dizer: “Quero ver as mãozinhas, vamos tirar o pé do chão!”. No meu tempo de atividade, eu vi isso aumentar de uma maneira incrível. Quando a gente começou não era exigido isso de um artista, e aí vieram várias ondas, a do sertanejo, a do axé, onde essa coisa virou quase que um camelô. Isso foi deteriorando, o artista como um cara que deva agradar o fã. E é engraçado, porque eu acho que um sinal de respeito ao fã é não pensar nele. Eu não quero que os artistas que eu gosto pensem em mim. Eu não quero que os políticos que eu gosto façam pesquisa pra saber o que que eu gosto da vida pra eles fazerem o que eu acho… Acho que é o contrário. Tu tem que pedir pro artista que ele busque o que está dentro dele e corra o risco de não agradar ninguém. Mas o lance hegemônico hoje é essa coisa do fã se ver como um consumidor.



3×4 – Isso não explica um pouco essa relação de amor e ódio que a gente falou antes?
agosto 14, 2008, 10:32 pm
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HG – É, acho que sim. Mas o que me dói, o que eu acho mais triste é o público achar que ser consumidor é bom. “Paguei meu ingresso”. Mas como assim, cara? Aquilo é arte, cara. Tu vai num show do Dylan, pode ser que ele acorde mal e toque mal pra caramba. As pessoas hoje querem uma arte que não corra risco. Acho que eu vim de tempos mais autorais. A gente quando começou nunca pensou em tocar cover. Na minha carreira tem só seis ou sete covers, e sempre são coisas autorais. Por exemplo, gravar Jovem Guarda, que era uma coisa cafona, ou gravar Gaúcho da Fronteira. Mas hoje em dia é quase impossível uma banda que tá começando tocar num bar sem tocar cover. Tu vai num festival e tem bandas que venderam milhões de discos e eles tocam músicas dos outros. Numas de entertainment mesmo. Não é culpa deles, é que tá se perdendo a coisa autoral mesmo. O que eu acho que é uma perda, porque o que a música pop tem de bacana é quando ela fica autoral, naquela curva que aconteceu nos anos 60, né? Com o combo, que os Beatles são mais o menos o símbolo disso: o cara que compõe é o cara que toca. Isso é uma coisa bacana na música pop. Mais do que aquilo: “pô, aquele cara toca pra caramba! Agora eu vou convidar o melhor letrista pra fazer a letra, o melhor baixista pra tocar, o melhor cantor pra fazer back in vocal”. Geralmente dá merda isso. Sabe ataque do Flamengo: Romário, Vasco e Edmundo?! Música pop não é pra ser isso. Se tu botasse, por exemplo, o melhor cantor do mundo pra cantar as músicas do Dylan, ficaria uma merda! Eu acho que Zé Ramalho canta melhor que Ed Motta. Tu pode me provar por A mais B que Ed Motta canta melhor, mas eu acho que Zé Ramalho canta mais.



3×4 – Frente a essa timidez, como fica a tua relação com os fãs?
agosto 14, 2008, 10:32 pm
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HG – O que acontece com a banda hoje em dia é que tem os fãs que conhecem a gente, e aí ficam fãs bem legais; e os fãs superficiais, que sempre rola um estranhamento, né? Eu acho natural. Qualquer artista que tenha tanto tempo de estrada tem aquela fã que é mais superficial, que te conhece só quando tu aparece nos grandes programas de tv, e aquele fã que te acompanha de perto. E esse fã que te acompanha de perto entende até e meio que protege a gente. E tem também aquele fã que te viu num programa de tv e quer ter um pedaço da tv na máquina fotográfica dele. E eu sei que ele não é fã pelo meu trabalho. Tem um lance muito engraçado que acontecia com o Augustinho. Ele era muito legal, mas ele era de uma geração anterior à gente, e ele não tinha participado do primeiro disco. Aí a gente ia pra sessão de autógrafos e ele não autografava quem trouxesse o primeiro disco da banda, o que eu acho uma atitude lógica. Mas ele autografava qualquer coisa. Se viesse alguém com um guardanapo rasgado, ele autografava. O que também é uma atitude lógica. Mas se tu juntasse na mesma fila alguém com o primeiro disco e alguém com um guardanapo rasgado, e ele autografasse o guardanapo e não o disco, a junção de duas atitudes lógicas ficava uma atitude absurda! Vinha o cara fã demais e ele não autografava! Quer dizer, é ter essa frieza de separar as coisas que tu aprende com o tempo. Eu agora sei quando o cara tá numa churrascaria e bate uma foto sem saber se eu sou a Paula Toller ou quem [risos] Eu já entendo, ele quer uma foto de alguém que tá na Globo. Tudo bem, ele tem direito. Mas eu já não vinculo isso com o meu trabalho, eu já não acho que isso seja o meu trabalho.



3×4 – É possível amar alguém que não se conhece de verdade?
agosto 14, 2008, 10:30 pm
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HG – Acho que quando tu ouve demais, tu acaba conhecendo. A grande dificuldade é que as pessoas te encontram num pé de desigualdade muito grande. Elas te conhecem muito mais do que tu pode conhecer elas. E se eu encontrasse meus ídolos na rua, ia achar que eles me conhecem muito bem, por que eu compartilhei muitas emoções com eles. Mas a desigualdade é muito grande. E eu recebo muitos e-mails falando: “Eu estou numa encruzilhada na minha vida, não sei se caso ou compro uma bicicleta”. Seria Muito fácil pra mim dizer casa ou compra uma bicicleta. Eu sempre digo: “Cara, infelizmente eu não te conheço”. Muita gente acha que é frio, mas é verdade! É o melhor que eu posso fazer. Belchior dizia que “qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa”. Talvez a gente busque essa ilusão de que a música é uma coisa muito perfeita. Mas talvez a gente tenha sempre que cair na real que qualquer vida é sempre maior que qualquer canção. Por menor que seja a música, por maior que seja a canção.



3×4 – E as tietes?
agosto 14, 2008, 10:29 pm
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HG – Cara, a gente nunca gerou um lance animal em relação às tietes, como o clichê do rock n’roll. Sempre fomos uma banda mais introspectiva. Na nossa época não tinha a cena alternativa, ou universitária. Se a gente tivesse começado hoje, a gente ia ser meio Los Hermanos, eu acho. Eu lembro que uma vez a gente tava tocando em Taubaté e, pô, a gente tinha público legal, o show foi legal. Aí a gente saiu do show, e cara! O nosso ônibus tava todo escrito com batom, todo, todo! Tu não via a cor original do ônibus. “Caraca! Que que houve? Que loucura selvagem! Que é isso, o que mudou?”. Aí cheguei no hotel, era uma sexta-feira e tinha passado o Globo Reporter do RPM. E no programa tinha uma cena das meninas escrevendo no ônibus do RPM, aí os fãs acharam que era isso que tinha que se fazer com uma banda e escreveram no nosso ônibus [risos] Me deu uma certa calma… Mas a coisa vai se espalhando. O próprio comportamento de fã é algo que acaba virando um clichê. Mas, pô, eu me coloco às vezes na posição de um fã. Sempre fui meio tímido, né? E às vezes tu chega num lugar e tem um monte de gente gritando pra pedir autógrafo, e tem umas pessoas quietinhas lá no fundo. Eu fico pensando: “Pô, eu seria aquele fã lá. Aquele lá merece o mesmo autógrafo que esse aqui, que tá se descabelando”.



3×4 – Tu já pediu autógrafo, Humberto?
agosto 14, 2008, 10:27 pm
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HG – Pedi pra um cara que era goleiro do Grêmio e estava veraneando ao lado da minha casa, em Xangri-la. O nome dele era Picasso. E pedi pro Brizola, num vôo, e fui vaiado, cara. Todo mundo odiava ele no Rio.



3×4 – Vocês fizeram comício pra ele?
agosto 14, 2008, 10:27 pm
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HG – A gente fez dois comícios de graça pra ele. Nós e o Arthur Moreira Lima [pianista]. Cara, o que eu aprendi nesses comícios! Foram em Curitiba e Maringá. O Arthur Moreira Lima viajava num caminhão com o piano dele. Era surreal. O partido não tinha estrutura nenhuma, um caos. Rolava passagem de avião em cima da hora, cada um da banda num avião diferente, nuns teco-tecos. Era a maior chinelagem. E na época o Collor vinha correndo. Os comícios dele eram todos certinhos, com Xitãozinho e Xororó. Aí, um dia antes de fazer o comício em Maringá, veio um cara da campanha e disse: “Viram ontem o programa do Collor? Pô, agora ele faz o seguinte: o palco está aqui, ele entra pelo meio do público, sobe pela frente. É a maior cena do caralho, ele vem pelo povo! Nós vamos fazer igual!”. Aí eu olhei o palco: “Caraca, eles vão fazer igual” [risos] Aí estávamos tocando, acabou e o cara falou: “Toca mais que o governador não chegou!”. Tocamos mais. “Toca mais que o governador não chegou!”. Tocamos mais. Dali a pouco eu vejo uma confusão. O Brizola tinha chegado e os caras estavam tentando fazer ele chegar daquele jeito. Só que o Collor tinha o maior marketing atrás, era tudo ensaiado. Cara, jogaram o Brizola no palco! Ele gritou: “Aaaah!! Aaah!! Me machucaram!!” [risos] Cara, era hilária aquela campanha. Hoje eu dou graças a Deus que ele não se elegeu, porque eu me responsabilizaria. Não era uma onda muito racional. Era um lance meio poético, meio caudilho, visionário. Era um cara bom pra estar no ambiente.



3×4 – Tu apoiava sem esperar que ele se elegesse?
agosto 14, 2008, 10:25 pm
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HG – Ele não tinha chance, né velho? Ele saía aqui do Rio Grande do Sul e não tinha chance! A maneira dele falar, cara… não tinha a menor chance.



3×4 – Se tivesse chance, talvez tu não fizesse o show?
agosto 14, 2008, 10:24 pm
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HG – Aí é… aí é melhor assim, PT, alguém que tivesse um partido atrás. O Brizola quase não tinha partido, era um caos. E tinha um monte de picareta atrás dele. Mas ele tinha essa coisa do visionário, do político não acreditar em pesquisa. Ele não via pesquisa. Todo mundo cercado de pesquisa, tudo científico e ele não tava nem aí. O programa de tv dele, cara, era parado e não tinha fundo. Pô, ele queria proibir computação gráfica na revista Veja. Isso é maravilhoso, né cara? [risos] Claro que é uma bobagem, mas olha o que ele tá falando… faz sentido! Pô, ele sabia que se colocar um dragão com a cabeça de um cara tem um discurso rolando que vai além do discurso do texto. Ele tinha uma coisa muito bacana, que era esse lance meio poético do Darcy Ribeiro. Pô, e o primeiro governo deles no Rio foi muito legal. Essa coisa do socialismo moreno, eu achava muito bacana.



3×4 – Nunca te incomodou pensar que as pessoas esperam algo de você?
agosto 14, 2008, 10:22 pm
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HG – Não. Tu sabe que outro dia eu fui no Altas Horas e tinha uma discussão super delicada sobre maioridade penal. Tinha um senhor que o filho tinha sido assassinado brutalmente, pedindo pra baixar; e um advogado dizendo que não. Meio dramático. Daí rola o microfone pra platéia, todo mundo dá pitaco, todo mundo acha que sabe de tudo, os artistas da Globo também… Daí perguntaram pra mim e eu falei: “Cara, não sei”. Ficou um silêncio do cão. O que eu recebi de e-mails falando: “Porra, do caralho, tu falou não sei”. Tu mostra dúvida e vai arrebentando essa coisa messiânica. No mundo todo mundo fala sobre tudo. Que importância tem saber o que o jogador de futebol acha sobre política, o que o político acha sobre futebol? Quando tu diz não sei parece uma lufada de ar. Cada vez eu tenho dito muito mais “não sei”, ou quando falo a minha opinião faço questão de dizer que ela pode estar errada. Mas sempre vai ter esse tom messiânico, por que é uma coisa que transcende o meu trabalho. Hoje com essa evolução tecnológica, todo mundo é meio artista. Tem diminuído esse respeito ao que vem do microfone. Mas uma coisa que tem que mudar é aquela coisa polidimensional. Desde o início do trabalho tem essa auto-ironia, auto-questionamento. Não é uma coisa contra algo, é uma reflexão sobre a tua condição.



3×4 – Você escreveu uma música sobre o livro do Scliar, o Exército de Um Homem Só. Você acredita no “amor à causa”?
agosto 14, 2008, 10:20 pm
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HG – Acredito. No sentido de que uma causa pode dar sentido a tua vida, e que possa fazer aquela transcendência que a gente falou no início. E mesmo quando a causa é perdida. Pô, um cara que lutou pelo socialismo real. Caiu o muro e ele se deu conta de que aquilo não era realizável. A vida dele não foi perdida. Acho que a tua causa ser perdida não quer dizer que a tua vida foi em vão.



3×4 -Isso influenciou no começo da carreira de vocês? Vocês tinham uma conotação política, né?
agosto 14, 2008, 9:42 pm
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HG – A primeira música do primeiro disco é “Toda Forma de Poder”, que coloca no mesmo refrão Fidel e Pinochet. Putz cara, o que eu sofri com o pessoal que era do movimento estudantil da faculdade.



3×4 – Fazendo uma analogia, toda forma de amar vale a pena? Tudo que tu amou valeu a pena?
agosto 14, 2008, 9:31 pm
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HG – Eu acho que quando a gente diz que “valeu a pena” não quer dizer que a gente fez as contas e ficou no lucro. Quer dizer que tudo foi necessário pra chegar onde tu tá. E onde tu tá, aqui e agora, é só o que tu tem. Então, se tudo que tu fez foi necessário pra chegar até aqui, e se aqui é só o que tu tem, pô, então tudo valeu a pena, né? Eu não mudaria nada na minha história. Mesmo os erros. Se for fazer as contas, tu pode fazer pelo lado financeiro, pelo lado da saúde, pelo lado da satisfação. Tem várias contas que tu pode fazer, e nenhuma delas é definitiva. Os erros que cometi, cometi por mim mesmo. A gravadora nunca me pressionou a escrever nada, então eu sempre estive muito a vontade com os meus erros. Não sei como é pra quem tem uma vida menos autoral. Talvez para quem tenha vivido a vida inteira seguindo a opinião dos outros não valha a pena. Porque tu tá ali e agora, mas não foi tu que te levou.



3×4 – Hoje você tem algum envolvimento político?
agosto 14, 2008, 9:31 pm
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HG – Hoje não. Esse ano, o presente de aniversário que a Clara [filha] pediu foi tirar o título de eleitora. Me lembrei de como eu era quando adolescente, que eu acompanhava muito e tal. Mas fiquei assim porque ela vai começar a acompanhar justamente em um momento que eu não valorizo mais a instância partidária. Acho que não é mais ali que se faz a coisa. A política partidária virou a ponta do iceberg. Já não é o campo onde se pode mudar alguma coisa. Mas enfim, ela tá bem interessada.



3×4 – E como é esse lance de amor aos filhos? Ontem eu estava no Messenger e perguntei pro pessoal se eles queriam te perguntar alguma coisa, e todo mundo dizia: “Cara, pergunta o telefone da filha dele!” [risos]
agosto 14, 2008, 9:30 pm
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HG – Isso é engraçado, porque demora até a gente aprender que o filho é pro mundo. Mas esse amor é um amor bem mais reacional, difícil de entender. Ele mistura um pouco aquele amor a ti mesmo. E a tendência que todo mundo tem de querer que o filho seja teu esboço passado a limpo é perigosa. Mas acho que é algo inevitável, eu me policio muito. Às vezes até acho que fiz isso pro lado errado, que me policiei demais. Eu nunca deixei entrar muito Engenheiros do Hawaii em casa. E o resultado é que agora é que ela está começando a se dar conta… Quando ela gravou o Acústico MTV, ela não tinha muita relação com as minhas composições. Mas também é o lance da idade, né?



3×4 – A tua carreira atrapalhou em algum momento as tuas relações familiares?
agosto 14, 2008, 9:29 pm
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HG – Não por ser carreira, mas por eu morar no Rio Grande do Sul, sim. A gente não viaja muito por aqui, nosso centro gravitacional mesmo é o centro do país. Então, essa distância dificultou bastante. Por outro lado, eu morava no Rio quando ela nasceu, eu podia ter continuado lá, mas eu não sei cara… Eu comecei a ouvir ela falar com sotaque carioca e achava muito estranho. Aliás, ela não tinha sotaque carioca, ela tinha sotaque nordestino, porque a babá era nordestina. E quando eu viajava, ficavam só as duas e não tinha esse lance de família lá, que eu valorizo muito. Acho que pô, uma coisa fundamental, que não se pode perder, é a relação com gente de mais idade. A minha mãe era a menor filha de dez irmãos, então os irmãos mais velhos dela tinham idade pra ser meus avós. De criança, eu tive muito convívio com eles. Eu acho uma coisa fundamental criança e adolescente conversar e ter convívio com gente velha. Não é nem questão de aprender, é a relação entre dois pontos da vida que parecem opostos mas são muito parecidos. As pessoas com idade tendem a ficar com um humor mais maluco, meio infantil. E eu achei que no Rio ela não ia ter isso, e me mudei por causa disso.



3×4 – Você nunca pensou em desistir da música?
agosto 14, 2008, 9:29 pm
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HG – Penso todo dia. Nunca faço planos para além do próximo disco. O pessoal que trabalha comigo diz que eu estou sempre com o freio de mão puxado. Mas é que eu nunca quis pensar nisso como profissão. As coisas aconteceram comigo aleatoriamente. E acho que isso é uma mensagem que eu tenho que acolher. Eu não gosto de pensar estrategicamente. A minha função não é cantar a nota certa, nem falar a frase certa. Acho que a minha função é tentar manter a sensibilidade. Se tu começa a pensar no futuro, fazer as contas e pensar: “Ah, eu ganhei tanto dinheiro com Infinita Highway”. Putz, isso aí acaba te engessando e tu perde o lance amadorístico, que é fundamental. Eu sou um “semi-pro”. Todo mundo da minha geração tinha orgulho de ser profissional, mas eu nunca gostei muito dessa palavra em relação à música.



3×4 – A gente queria saber da Ana, de “Refrão de Bolero”. Dá pra amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?
agosto 14, 2008, 9:28 pm
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HG – Existiu uma Ana, de fato. Mas a música não é documental nesse sentido. Ali são várias situações que eu juntei. E amar mais de uma pessoa nesse amor de homem e mulher acho que não… Tu pode te relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo, sem dúvida. Mas acho que se tu for monogâmico, tem muito a ganhar.



3×4 – Tu é casado desde o começo do Engenheiros. Existe tensão por estar sempre viajando?
agosto 14, 2008, 9:28 pm
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HG – Pois é, hoje eu acho até que a gente fica mais tempo fora de casa por eu estar morando aqui. Mas eu não consigo imaginar uma relação sem ser monogâmica. Pra mim é igual jogar futebol com 13. Dá pra jogar? Dá. Mas não acredito, por que eu acho que ali é a hora de tu ter o cúmulo da sinceridade. Ser sincero como não se deve ser. E aí acho que é fundamental que seja uma pessoa, pra ser olho no olho. Agora, claro, tu pode te relacionar com um monte de gente. Mas eu acho que com a monogamia é muito melhor. Mas é um mito que a gente tem hoje em dia, é um absurdo falar em monogamia. Porque não é o tom da música que tá rolando…



3×4 – Tu acredita no casamento, então?
agosto 14, 2008, 9:27 pm
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HG – Ah, eu acredito sim. Acredito, como acredito num time. Tu torce pro time quando está na segunda divisão. Tá, pô, tamo envelhecendo. Tamo envelhecendo, é isso aí. Tamo de mau humor. Tamo de mau humor, é isso aí. Porque tu quer o que? Só doce? Eu não vejo muita graça numa relação onde só tenha as coisas bacanas.



3×4 – Você gosta da provocação e da adversidade em todos os sentidos da tua vida, então?
agosto 14, 2008, 9:16 pm
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HG – É, eu acho que sim. Isso aqui é um vale de lágrimas, mas a gente tem que tomar essa afirmação com bom humor. Ninguém disse que é fácil viver, e isso não quer dizer que a gente deva sair cortando os pulsos. É que a gente tá vivendo numa época meio Prosac, né? Eu tava nos EUA uma vez, gravando o “Simples de Coração”, e tinha uma propaganda que eu não entendia muito bem. Era um ponto de interrogação andando, e no fim aparecia “sabor tutti-frutti”. E aí os caras disseram, era propaganda de Prosac pra criança. E eu: “Caraca, que merda!”. A gente está vivendo uma geração que tem medo de ter medo, tem medo da dor. Eu tive uma formação católica, e esse lance da dor é bem presente. Acho que consegui fazer um filtro legal da formação que eu tive. E acho que isso faz parte.



3×4 – Tu casou no religioso, Humberto?
agosto 14, 2008, 9:15 pm
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HG – Não, só no civil.



3×4 – E a religião é importante na tua vida?
agosto 14, 2008, 9:14 pm
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HG – É, mas eu tenho um problema com a formatação da religião católica. Acho muito mundana. Essa coisa do casamento… e mesmo a infalibilidade papal, eu fico meio de pé atrás. Então nunca levei muito a sério. Várias vezes pensei em ir pra algo mais luterano, mas sempre alguma coisa me travou.



3×4 – Mas e o amor a Deus?
agosto 14, 2008, 9:14 pm
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HG – Eu acredito nesse Deus de barba comprida, que assopra nuvenzinha. Na verdade eu acredito em Papai Noel também! [risos] Eu só não acredito em Coelhinho da Páscoa…



3×4 – No teu último disco, uma música se chama “Eu não consigo odiar ninguém”. Você não acha que as palavras “amar” e “odiar” estão numa paridade de banalização?
agosto 14, 2008, 9:13 pm
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HG – Essa música é porque eu sou um hippie velho [risos]. Mas estão, né? Estão. Me parece que hoje o ódio pegou o estigma de ser algo inteligente, e o amor de ser emocional. Quando todo mundo diz que odeia, parece que o cara pensou um monte e chegou à conclusão de que aquilo é uma merda. Eu acho que os dois são iguais, os dois são racionais e irracionais ao mesmo tempo. Essa falta de simetria do ódio em relação ao amor é o que me irrita um pouco. Sempre vão achar mais inteligente alguém que fala “eu odeio isso” do que alguém que fala “eu amo isso”. Porque o ódio ficou com essa imagem de ser algo mais legal, revolucionário. E de fato é. O amor, em certa medida, é uma coisa conservadora. Eu vejo pelo amor que os fãs têm pela banda, eles não querem que nada mude.



3×4 – Você acha que alguma mulher já se apaixonou por Humberto Gessinger pelas músicas que você escreve?
agosto 14, 2008, 9:05 pm
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HG – Cara, eu espero que sim. Por que se há algo pelo qual vale a pena se apaixonar, é o lance da música. Se apaixonar no sentido de compartilhar e querer saber qual é o próximo passo do artista, e achar que o artista é teu. Acho isso muito positivo. Eu não conheço ninguém que seja artista sem ter sido fã. Acho que gera a mesma nota, ser fã e ser artista. Aliás, conheço muita gente que aprendeu a tocar, mas não conheço ninguém que aprendeu a ouvir música. Ouvir música é um verdadeiro dom. Então, pô, espero que alguém tenha se apaixonado. E espero também que saiba que é apenas uma representação. Um mundo só de notas musicais seria um mundo maravilhoso. Mas a vida real às vezes não é isso.




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